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Caminhos sexuais Junho 18, 2010

Posted by Lucas Gabriel Marins in Curiosidades, Dia a dia, Faculdade, Imprensa.
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Apesar de não ter muita vergonha na cara, entrar em uma sex shop, no meio da tarde, é algo constrangedor. Antes de passar pela porta vermelha e branca de uma das filiais da Sex Boutique – há duas em Curitiba e uma em Porto Alegre -, na Travessa Jesuíno Marcondes, nos arredores da Praça Osório, caminhei umas três vezes pela frente, fingi que atendi o celular e, por fim, depois de mais alguns minutos de tensão, criei coragem. Havia mais de oito meninas vendendo pênis de borrachas, pênis vibradores, vaginas rosas, gel anal, calcinha comestível e outros milhares de produtos. Fui direto à caixa, uma mulher de uns 39 anos, branca, de olhos pretos e cara amarrada – parecia aquelas velhas dos filmes que maltratam as crianças –, uniforme preto e unha pintada de vermelho. Apesar de todas as demonstrações de uma possível ruindade, resolvi conversar com ela e agir da maneira que todo repórter deve se comportar.


“Boa tarde, tudo bem?”, perguntei. “Sim, estou bem. Posso ajudar?”, ela disse. Apresentei-me: “Claro. Meu nome é Lucas e eu sou repórter – na verdade, estudante de Jornalismo – e preciso escrever uma matéria sobre sex shop. Você pode conversar comigo por alguns minutos, só para eu tirar algumas dúvidas em relação aos produtos?”. Na mesma hora, a cara da mulher, que já era pra lá de sinistra, evoluiu de velha rabugenta para o capeta, assim como no Pokémon o Pikachu se transforma em Raiuchu. “Não. Você deveria falar com o proprietário antes, mocinho.” “OK, passe o telefone dele, por gentileza. Eu entro em contato agora mesmo”, respondi, com vontade de sair correndo daquele lugar, pois as outras meninas, as vendedoras, já haviam percebido que alguém queria retratá-las e o clima ficara meio pesado.

Liguei para o proprietário, um tal de Jorge. Ele foi simpático e liberou minha permanência em sua loja. Entrei novamente na Sex Boutique e conversei com a velha: “O dono liberou e pediu para eu conversar com a Silvia, a supervisora. Creio que seja você. Mas, se a senhora não pode conversar comigo agora, vou ficar só observando as coisas, sem encher seu saco e atrapalhar suas vendas, OK?”. Ela aceitou, pois o Jorge havia permitido e eu demonstrara tanta simpatia quanto ela. Então, comecei a bisbilhotar a estante de livro da loja.

Folheei o Kama Sutra, um guia de práticas sexuais indiano bem conhecido no ocidente. Havia também o Kama Sutra gay, outro sobre pompoarismo, técnica oriental para contração dos músculos vaginais, e vários guias sexuais que ninguém, além de mim, olhava – pelo menos naquele momento. Bem próxima a mim, uma das funcionárias vendia gel para uma cliente. “Se sua vagina não é muito lubrificada, sugiro que você leve este produto, pois, com certeza, ele irá ajudar.” Só pude ouvir isso, pois a vendedora me encarara de forma não tão simpática.

Fui passear pelos pênis de borracha. Apertei o azul, segurei o amarelo e dei uma cheirada no com sabor. Difícil imaginar uma mulher ou um homem usando um pênis laranja em jelly cabeça dupla, que custa R$ 129 à vista ou em quatro vezes de R$34,12. O produto é fino, e tem duas cabeças penianas. Imagine duas mulheres usando: elas poderiam deitar na cama, virar de costas uma para a outra e introduzir o pênis em suas respectivas vaginas. Ou, quem sabe, fazer tipo uma tesoura e entrelaçar as pernas. Bom, acho isso estranho, mas tenho vontade de ver. Na verdade, procurei na internet.

Coloquei no Google “mulheres usando pênis duplo vídeo”, “um pênis duplo em duas vaginas” e “pênis cabeça laranja na vagina”, mas não encontrei nada. Bom, fazer o que se o Google não entende as fantasias sexuais alheias?
Voltando à loja: depois de passear pelo setor pênis, resolvi correr para as vaginas, andar pelos lubrificantes e mexer nas calcinhas e fantasias femininas. Vi duas clientes no setor calcinhas. Uma delas estava no telefone, falando com o namorado. “O que você prefere, bat woman ou anja?” Não sei qual ela escolheu, pois eu já estava quase indo embora – as vendedoras não paravam de me encarar. Resolvi conversar com outra, chamada Fernanda.

“Oi, como vai? Posso conversar contigo rapidinho?”, perguntei. “Você é cego? Não vê que a loja está cheia de clientes?”, ela respondeu. “Mas você está parada, arrumando os cabides. Só me diga uma coisa. Quem são os maiores compradores? Mulheres ou homens?”. Foi a única informação que ela me deu: “80% dos nossos clientes são mulheres”. Fui embora. Estava contrariado. Fui muito maltratado. Resolvi mudar de tática e ir a outro sex shop.

Segunda tentativa

Liguei para um amigo. “Ei, conhece algum outro sex shop, além da Sex Boutique, perto da Osório?”. “Sim, na Carlos de Carvalho tem um chamado Sex One. Além de vender produtos sexuais, é uma locadora de filme pornô.” “OK. Abraços e obrigado”, respondi. Fui até lá e, diferente da primeira vez, me identifiquei como cliente – um cliente novo e aparentemente pudico. “Boa tarde. Estou morrendo de vergonha. É a primeira vez que entro em um sex shop. Namoro faz três anos e queria apimentar minha relação com minha esposa. Você pode me mostrar os produtos?”

Uma lésbica me atendeu. Ela era gorda, usava uma camiseta preta da banda Aerosmith e sabia mais de vagina do que qualquer homem que eu conheço. O outro funcionário era gay, mais mulher que muitas moças que vi por aí. A lésbica, chamada Cléu, me mostrou os produtos.  Apresentou os perfumes de feromônio. “Este é o Avant L’Amour. Se você passar, a sua menina e as outras ficarão loucas por você.” Era um perfume horrível, mas, para não contrariar a vendedora, falei que era bom.  Ela passou um gel de canela na minha mão e pediu para eu lamber. “Este é para fazer sexo oral. Você passa na vagina da moça e, além de deixar com esse gostinho bom, esquenta os lábios.”.  “Humm”.

Ela me levou até as vaginas. Eram caras. Uma branca e preta que vibra custava R$ 149. A lésbica queria me enfiar aquela vagina a todo custo. Havia umas mais baratas, mas, segundo a vendedora, a vibração não era tão boa como a da vagina preta e branca. Tinha também umas argolas vibratórias para pênis. Achei meio estranho. “Por que essa argola é rosa? Parece coisa de gay usar.” “Não, pode ficar tranquilo que é coisa de homem. Segure e aperte. Veja como é mole. Imagine seu pênis com isso entrando na vagina de sua esposa”. O negócio realmente era mole e macio que deu vontade de experimentar.

Fui às cuecas. Tinha uma cueca preta, de elefante, com tromba e orelha. Gostei muito dela. Quase comprei. A outra cueca era bem chamativa: branca e tinha um 69 estampado bem no local em que o pênis fica guardado. Na hora em que ela me levou para ver as fantasias femininas, entrou outro ciente na loja. Ele foi direto aos filmes pornôs. Reparei um pouco nele, enquanto a lésbica tentava enfiar aqueles produtos em mim. Ele era moreno, barrigudo, tinha um cavanhaque mal feito e os dentes amarelos. Usava uma calça jeans azul e uma jaqueta de couro surrada. Era feio pra caramba. Acredito que poucas mulheres sentiriam atração pelo sujeito. Enquanto ele via os filmes pornôs com os olhos, suas mãos não saiam do pênis. Difícil acreditar que um homem vai a uma locadora pornô e se masturba sem o menor receio, mas isso realmente aconteceu.  Não quis esperar para ver se ele ejaculava.

Falei para a Cléu que eu já tinha visto o suficiente. “Sabe, você abriu minha mente. Antes eu sentia muita vergonha disso, mas agora, com certeza ,vou esquentar minha relação com minha esposa. Vou conversar com ela e ver o que ela acha dos pênis e das calcinhas e logo logo volto para comprar algo, ok?”. Ela me deu seu cartão e apresentou o outro vendedor. “Este é o Thiago. Se um dia você aparecer e eu não estiver aqui, ele atenderá você.” Ele me cumprimentou e eu acenei. Fui para casa correndo, pois precisava, urgentemente, mijar.

Texto apresentado à disciplina de Redação 7, ministrada pelo professor e jornalista Paulo Camargo. A pauta foi sugerida por uma aluna da sala e o texto escrito de acordo com as características do jornalismo gonzo, estilo que leva em conta participação do repórter, parcialidade e um pouco de humor.

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Comentários»

1. Fernando - Junho 19, 2010

Huahuahua seu texto ta ótimo Gu


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